O YouTube passou por grandes mudanças nos últimos meses. Desde meados de abril de 2017, a plataforma começou a fazer alterações drásticas no algoritmo em diversas áreas do site, principalmente em relação aos lugares em que os anúncios são vinculados, o que provocou o Adpocalipse – como ficou conhecido o fenômeno da “queda de confiança” de grandes marcas no YouTube -, e a como vídeos são divulgados para os usuários, dado que vários criadores passaram a relatar que suas visualizações despencaram simultaneamente, mesmo sem qualquer alteração nos canais e sem nenhuma explicação.

Se fossem casos isolados, os influenciadores avaliando seus canais na tentativa de identificar o que poderia ter causado a queda teriam notado causas individuais, mas o fato disso ter ocorrido ao mesmo tempo com muitos canais – como vemos nas reclamações diárias via Twitter de diversos criadores que aumentaram muito desde abril – só comprova que o que mudou não foram os canais e sim o algoritmo.

Quem está sendo alvo desse problema deliberado?

Entre todos os diversos nichos de conteúdo que podemos encontrar no YouTube, existe um em específico que foi o mais afetado – se não o único – por essas mudanças: a categoria de canais voltados a games. Essa comunidade, especificamente, parece ter sido o grande alvo dessas alterações no algoritmo do site.

Cada vez mais é possível traçar uma linha tênue que divide o sucesso dos canais de jogos antes e depois das mudanças que a Google fez em seu produto. Antes: o maior, mais forte e mais influente nicho de canais dentro do YouTube (vide PewDiePie). Depois: o conteúdo que mais perde popularidade e visualizações conjuntas a cada dia. Basta analisar canais de games antes e depois do Adpocalipse e das nítidas alterações que o YouTube fez nas engrenagens da plataforma.

YouTube está matando canais de gameplays propositalmente.

De quem é a culpa e como isso está prejudicando?

O grande culpado disso é a diminuição proposital da divulgação desse tipo de conteúdo. Esse algoritmo alterado divulga menos vídeos sobre games para visitantes do site que poderiam ter interesse em assistir esse conteúdo, além de divulgar menos vídeos novos recém postados para o próprio público que o criador acumulou ao longo do tempo. O resultado desse encolhimento evidente que todos os canais sobre jogos vêm relatando há meses é a diminuição de views e o crescimento desacelerado no número de inscritos.

O que o YouTube vem fazendo é uma censura friamente calculada de canais que publicam gameplay ou vídeos relacionados a jogos. E para identificar esses canais de forma automática, o algoritmo novo se usa de informações como título, tags e metadados dos vídeos e dos canais. Se títulos de games ou palavras como “jogo” ou “gameplay” são identificadas, esse vídeo está fadado a ser afetado pela diminuição deliberada de alcance.

A prova de que o YouTube não quer mais canais de gameplay

A comprovação máxima de que algo não está certo no YouTube atual no que diz respeito a canais de games foi o que relatou com provas chocantes o influenciador Davy Jones em um de seus vídeos recentes, onde ele explicou o motivo de um dos seus canais parar com o formato de gameplay até segunda ordem. Como o youtuber conta no vídeo, seu canal criado no fim de 2016 intitulado Davy Jones – que de início postava conteúdo sobre jogos num formato mais descontraído e com maior edição do que seu canal principal na época, o GameplayRJ – ultrapassou o poder de alcance do seu canal principal a partir do momento em que ele começou a produzir vídeos experimentais no formato vlogger.

Davy Jones expõe provas sobre como o YouTube não quer mais canais de gameplay na plataforma.

Ou seja, de uma hora para outra, o canal Davy Jones, publicando vídeos do nicho vlog, ultrapassou as visualizações do canal GameplayRJ que continuou postando vídeos de gameplay. E detalhe: mesmo publicando com menos frequência e tendo bem menos inscritos, visto que o canal GameplayRJ é alimentado com sete vídeos ou mais todos os dias e soma mais de 5 milhões de inscrições, enquanto que o canal Davy Jones posta dois vídeos ao dia com pouco mais de 1,5 milhão de seguidores. E mesmo assim, no fim do mês, o canal Davy Jones vem ganhando muito mais público desde que saiu da área dos jogos e passou a focar em vlogs nos últimos tempos. Conversando com alguns criadores na plataforma, fica claro que essa mudança do algoritmo foi mirando em canais voltados a games.

Com isso, não existem dúvidas de que o YouTube está deliberadamente prejudicando canais dessa comunidade. O próprio Davy Jones, um influenciador com enorme experiência e reconhecimento na plataforma, diz com todas as palavras acreditar nessa teoria com fortes evidências, como ele explica em seu vídeo abaixo no trecho de 03:49 a 06:25.

E qual seria o motivo para fazerem isso?

Pois bem, muitos lendo esse artigo de opinião nesse momento devem estar se perguntando: “por que fariam isso?” A verdade é que existem muitos motivos que podemos apontar e que tentam explicar essa decisão do YouTube. Mas a principal teoria que canais sobre jogos cogitam no momento é de que a segregação de categorias em novas plataformas é algo de interesse do Google a muito tempo, e está sendo colocado em prática aos poucos, começando pelo maior e mais poderoso nicho.

Ao invés de um grande site com conteúdos diferentes misturados e separados apenas por categorias, a Google criou produtos como o YouTube Gaming e o YouTube Kids. Uma das razões para isso é o fato de que, dessa forma, anúncios são muito mais direcionados a um público específico e sem a necessidade de uma coleta massiva de dados dos usuários – que, mesmo assim, nem sempre trazem resultados satisfatórios -, visto que, nesse exemplo do YouTube Kids, evidentemente a audiência são de crianças.

No YouTube “normal”, os direcionamentos de demografia para anúncios ainda são bem precisos, mas não tanto quanto dar a possibilidade de colocar categorias inteiras separadas do site principal e com anúncios que vão chamar muito mais a atenção de qualquer visitante em uma plataforma isolada e com maior controle por parte do Google. Se esta teoria estiver correta, acredito que os criadores não se importariam e até prefeririam que anúncios fossem direcionados de forma ainda mais precisa para seu público. O problema é tentar fazer essa estratégia funcionar à força, como aparentemente está sendo feita, e sem se importar com o prejuízo que isso está causando aos criadores.

A prova mostrada mais acima e essa explicação de um dos possíveis motivos por trás da queda de canais da comunidade gamer confirmam de forma bastante evidente as suspeitas que tínhamos sobre a tentativa de diminuição do poder de alcance desses canais no YouTube; e tudo isso para alavancar outro produto com uma estratégia ousada, porém desonesta, que desrespeita e não se importa com o trabalho construído ao longo de anos pelos seus criadores.

A ferramenta “patrocínio”, do Twitch, foi copiada na tentativa de obrigar e seduzir com chantagem monetária os criadores a influenciarem seu público a migrar para o YouTube Gaming.

Concluindo…

A conclusão que podemos chegar é a de que o YouTube não quer mais vídeos de gameplay em sua plataforma principal. Simples assim. Ao invés disso, eles preferem desmembrar esse nicho todo em uma plataforma separada, o YouTube Gaming, assim como fizeram com o YouTube Kids e como pretendem fazer com as maiores categorias de conteúdo do site.

O YouTube Gaming se mostrou um projeto interessante, mas que até hoje comprovou-se ter fracassado em puxar a comunidade gamer para longe da plataforma principal, já que esse público está habituado a encontrar todo o conteúdo que quer assistir em apenas um lugar, ao invés de ter que mudar entre um site e outro toda vez que quer ver um tipo de vídeo específico.

Mesmo com ferramentas que tentam imitar concorrentes – como o Twitch, dando a possibilidade de canais receberem patrocínios exclusivamente no YouTube Gaming e influenciar os youtubers a puxarem seu público para lá -, essa plataforma secundária e segregadora não é de interesse da comunidade gamer do site se isso significa diminuir propositalmente o alcance de canais sobre jogos no YouTube “normal” na tentativa de empurrar esse público para outro lugar à força, impondo as vontades do Google sobre seus usuários sem se importar com o que pensam os criadores de conteúdo.

 

ESTE É UM ARTIGO DE OPINIÃO E PODE NÃO REPRESENTAR A VISÃO DEFENDIDA POR ESTE VEÍCULO ACERCA DO TEMA TRATADO.